Fonte: imagem jornalggn.com.br
Por Gilvane Caldas
A final de um campeonato de futebol revela um paradoxo desconfortável diante da enorme capacidade de mobilização emocional pelo esporte e, ao mesmo tempo, uma apatia quase silenciosa diante das mazelas políticas que corroem o país. É curioso e preocupante observar como parte da população encontra forças para chorar, gritar, lotar estádios, ruas e redes sociais por causa de um jogo, e demonstra apatia, indiferença para enfrentar escândalos que afetam diretamente a qualidade de vida desse próprio povo.
Essa paixão concentrada no futebol não é o problema em si; o esporte é parte da identidade cultural brasileira, algo que une e emociona. O problema surge quando essa energia se torna seletiva, na indignação condicionada a um placar, mas não por uma votação ou postura que envergonha e macula a instituição Congresso Nacional. A frustração explode com um pênalti perdido, mas não com bilhões desviados em acordos espúrios feitos nos porões e salões nobres dos centros financeiros do país.
A política nacional muitas vezes parece distante, complexa e isso contribui para o desengajamento. Porém, essa distância é ilusória: decisões tomadas em Brasília influenciam a educação do filho, o preço do alimento, a existência de saneamento básico, a presença de hospitais equipados e a segurança nas ruas. Ainda assim, para muitos, esses gargalos são apenas ruídos de fundo normalizados, tratados com indiferença.
Parte dessa apatia nasce da descrença geral nas instituições; outra parte vem de um cansaço legítimo. Mas há também uma dimensão cultural: o brasileiro aprendeu a venerar futebol e odiar a política. É como se houvesse indulgência para o que realmente importa e intensidade para o que, embora apaixonante, não muda nada no cotidiano do país.
Enquanto a mobilização permanecer limitada ao campo esportivo, a política continuará sendo território fértil para canalhas e falcatruas de gente inescrupulosa. A energia que o brasileiro demonstra nos estádios tem potencial para transformar o país, se for levada para as urnas, para o debate público, para a cobrança diária dos representantes.
O desafio é deslocar parte dessa energia para onde ela realmente faz diferença: para a defesa da ética, da transparência e do interesse coletivo. Porque, no final, nenhum título de futebol compensa a perda de direitos, de recursos e de dignidade que a má política impõe a todos nós trabalhadores.
Caetité-Ba
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