Por Gilvane Caldas.
Desde que o homem existe ele se organiza em sociedade para viver e desenvolver suas atividades em torno de objetivos comuns, sejam eles no campo ou na cidade como forma de se defender e buscar seus direitos. No lazer também é assim, as pessoas se divertem de acordo as afinidades que possuem e no mundo do futebol essa característica talvez seja a mais visível e acentuada.
O mundo futebolístico é cercado de muitos mistérios que para alguns é difícil entender como ter tanto dinheiro envolvido nas transações de jogadores, enquanto para outras áreas essenciais da vida humana faltam recursos. O objeto aqui são meninos pobres das periferias, das baixadas, dos campos de terra e das várzeas que se revelaram para o mundo e se transformaram em objetos de desejo ou produto de alto valor no mercado do futebol.
Mas aqui não pretendo discorrer sobre negócios do futebol. Aqui o negócio é mais grave! Trata-se do assustador "pacto" de silêncio dos jogadores brasileiros, principalmente, aqueles do alto escalão, da elite do futebol nacional e internacional a respeito dos episódios envolvendo os casos de estupros e assédio sexual por parte de alguns jogadores famosos.
O caso do jogador Robinho ex-seleção brasileira, condenado com nove anos de prisão na Itália, por estupro de vulnerável, ficar "escondido" aqui no Brasil, é algo que precisa nos incomodar, pois não há na legislação brasileira a possibilidade do brasileiro ser extraditado para cumprir a pena em outro país. Enquanto isso, o atleta é visto nas praias da Baixada Santista jogando futevôlei com seus parças famosos como se nada tivesse acontecido.
Com acusação semelhante, porém, com um resultado diferente, o ex-atleta da seleção brasileira, Daniel Alves, está sendo acusado de cometer o mesmo crime que Robinho, no entanto, com um resultado diferente. Daniel está preso na Espanha aguardando o desenrolar das investigações, que ao que tudo indica, será condenado pelas provas até então encontradas.
O problema dos jogadores pobres que ficam ricos é que na maioria das vezes apesar de viverem em ambientes "chics", de muita badalação, cercados de "gentes importantes", de muita farra, mulheres, mas sem carregar princípios básicos que fazem do indivíduo o homem completo, com valores morais que compõem o caráter de um sujeito íntegro numa sociedade civilizada.
O futebol no Brasil tem uma importância muito grande na vida das pessoas. Sendo assim, um jogador de futebol precisaria ter uma postura diferente no que se refere aos valores da família e da vida, porque ele influencia por gerações o comportamento de crianças e adolescentes. A ausência da escola e o afastamento da família muito cedo, podem não permitir que eles tenham a capacidade para contribuir com valores como a solidariedade de princípios legais.
O silêncio dos atletas e da imprensa esportiva, nesses dois casos, principalmente, por serem recentes, deve nos deixa bastante preocupados, pois, parece ser um sinal de que essa anomalia é vista como algo natural no mundo do futebol, uma vez que a não condenação em público dos atos praticados pelos dois atletas, nos traz a sensação de que a vítima tem pouca importância nessas circunstâncias. Talvez o dinheiro fácil tenha produzido nos meninos pobres, mas enriquecidos, a sensação do direito de abusar dos seus próprios limites, contando com a impunidade e o próprio dinheiro. Essa cultura não pode prevalecer!
Condenar os crimes neste momento vai servir não apenas para dizer que são contra, mas para orientar novas gerações de que o respeito às mulheres precisa ser dado em todo e qualquer lugar. A violência por mais banal que seja é uma violência e precisa ser enfrentada. Não podemos falar em democracia sem que se exerça o direito de se fazer justiça.
Calar diante de fatos com tamanha gravidade não nos coloca em pé de igualdade numa sociedade civilizada, mas sim, diante da barbárie. É importante que as pessoas que exercem algum tipo de liderança ou influência se manifestem de forma coerente em todos os aspectos da vida, seja na política, na cultura e na sociedade em geral. Combater todo e qualquer tipo de violência, seja ela qual for, é obrigação do cidadão. Não se pode aceitar como natural a expressão do racismo, do preconceito, do machismo, da homofobia, do ódio às mulheres, aos negros, aos índios e as minorias de forma geral.
Se o silêncio ou a conivência prevalece diante de fatos dessa natureza é o sinal de que estamos doentes e que a sociedade precisa urgente passar por um choque de transformação moral para recuperar valores que, ou não foram adquiridos ou foram perdidos ao longo do tempo.
Caetité-Ba.
