quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

UMA HORDA INSANA

 Por Gilvane Caldas.

Os meios nunca poderão justificar os fins. O ocorrido em Brasília no dia 8 de Janeiro de 23, foi simplesmente o somatório da estimulação, do incentivo e da leniência sem igual dos Poderes da República, especialmente do judiciário, para com os chamamentos por intervenção militar desde as motociatas aos "7s de setembros". Analisar os fatos depois dos acontecimentos nos obriga a mergulhar numa reflexão mais profunda saindo da busca simplesmente de quem foram os culpados por permitirem o triunfo da insanidade.


Mesmo assim, não podemos deixar de fazer algumas observações que consideramos o nascituro dessa coisa chamada de terrorismo. Quando o presidente fazia ameaças veladas à democracia, apoiando movimentos de opiniões golpistas,  alegando liberdade de expressão e direito de manifestação, as autoridades ao invés de cumprir com suas atribuições no que determina a Lei ficavam nas redes sociais emitindo opiniões sem nenhuma consequência para os infratores. O ex-presidente Bolsonaro nunca demonstrou durante a sua trajetória política e ao seu governo apreço à liberdade e à democracia. 


A manifestação ocorrida naquele fatídico domingo foi fruto da inoperância dos órgãos de segurança pública do DF, do Supremo Tribunal Federal e principalmente do Exército Brasileiro permitindo que pessoas com ideais golpistas e fascistas acampassem frente aos QGs, gritando por Intervenção Federal. Os poderes que compõem a República e sustentam a democracia brasileira,  infelizmente foram lenientes, falharam e permitiram que as coisas chegassem onde chegaram. 


O leite já está derramado, mas ainda há tempo para fazer diferente do que foi feito no passado, onde os militares foram anistiados dos crimes praticados durante a ditadura militar brasileira. Os fatos de agora, tão graves quanto aqueles, nos remetem a um passado de violência que precisa ser "corrigido" com a força da Lei. 


É importante que os órgãos do poder judiciário pese a mão na aplicação das penas no que diz respeito a punição dos culpados pela baderna provocada no DF, como  determina a Lei. A punição exemplar, sem revanchismo aos infratores é de fundamental importância para que fatos dessa natureza nunca mais volte a repetir-se e que a democracia jamais seja questionada na sua essência.


Os prejuízos materiais e imateriais são incalculáveis e não  podem ser medidos apenas do ponto de vista da ordem das cifras. A destruição foi no coração da democracia, foi  na alma do povo brasileiro. Atentar contra um patrimônio tombado ou uma obra de arte, significa extinguir um produto resultado da liberdade e da criação humana pois, são nelas  que se  pode visualizar o exercício da democracia, onde os traços se cruzam em posições opostas,  compondo uma estrutura que se comunica com o seu exterior. É provável que alguns dos destruidores das obras jamais tenham visto ou ouvido falar de Di Cavalcanti, Portinari, Van Gogh ou até pisado numa sala de exposição. Para eles foi um quadro qualquer, sem "valor" ou importância. Um desenho apenas!


Atos com sinônimo de terrorismo precisam ser rechaçados diuturnamente por todos e todas em todos os lugares possíveis.  Infelizmente,  esse é o momento para a sociedade brasileira vivenciar e perceber que a barbárie e a ignorância são sentimentos que encontram-se adormecidos no seio da sociedade necessitando apenas de um estímulo  conhecido como "apito de cachorro" para se manifestarem.


O compromisso para a proteção e a manutenção de um sistema democrático não pode ser uma obrigação exclusiva dos Poderes da República. É  também da sociedade civilizada. Apenas os egoístas e os desprovidos dos sentimentos de coletividade e de solidariedade são capazes de buscar o fim da democracia.


Por fim, não adianta buscar os culpados diante de tudo que aconteceu em Brasília neste 8 de Janeiro de 2023. Nós, enquanto sociedade falhamos porque não fomos capazes de buscar na jovem democracia a distribuição de renda justa, não fomos capazes de construir uma segurança pública eficiente, também não tivemos a capacidade para oferecer saúde de qualidade, assim como, um ensino público que pudesse formar cidadãos comprometidos com a democracia. Enfim, insisto, nada está perdido, o instante é para reflexão pois, os caminhos e os desafios estão  postos para que os erros sejam reparados e a democracia volte a ser a trilha sonora da civilização contra a barbárie.

Caetité-Ba.



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