quinta-feira, 9 de outubro de 2025

QUEM MATOU ODETE?

Por Gilvane Caldas

A ficção é a expressão artística elaborada pela criatividade capaz  de produzir sensações inexplicáveis na alma humana. É  através dela que viajamos em narrativas fabulosas que em determinados momentos se funde com a realidade, experimentada em determinadas situações das nossas vidas. Ela pode expressar sentimentos e desejos que no imaginário são passíveis de concretização ou não.

A espécie humana talvez seja a única que sente-se vingada pela morte de um algoz, quando ela se acha incapaz para “vencer” de forma racional. Essa condição de eliminar o adversário ceifando a vida é  uma forma de demonstrar o quanto somos incapazes de aceitar nossas fraquezas e derrotas na vida.  O mote da semana veiculado nas mídias e na rede era “quem matou Odete”?

“Odete tinha como suas principais características eram a arrogância, o preconceito e a discriminação relacionados ao Brasil e seu povo, que julgava ser indolente por ser miscigenado. Odete, também manipulava a vida de seus familiares, tendo colocado no filho mais novo, sua esperança de sucedê-la no comando do império familiar, querendo que ele vivesse na Europa” (G1. 2025).

A morte misteriosa de uma personagem fictícia em uma telenovela exibida em 1988, revela o quanto e como a espécie humana com sua postura violenta,  agressiva e preconceituosa alimenta o ódio e a sede por vingança. Por outro lado, a sede da vingança e a trama assassina se coadunam num gesto de covardia e maldade, que podem servir de ensinamentos para indivíduos de mentes ardilosas na vida real.

Dessa forma,  matar na ficção não significa um ato sem conexão com a realidade dos lares, ruas e favelas das nossas cidades. O assassinato na ficção reverbera o êxtase no inconsciente dos telespectadores, que ficam na torcida pelo vencedor,  neste caso, o senso de vingança e  a morte são a trilha do enredo macabro onde o clímax  não é a esperança por justiça ou pela vida, mas pelos mistérios que envolvem o ato criminoso.

Assim segue a realidade imitando a ficção, sem que as pessoas tomem consciência de  que a ficção pode ser o retrato ou o regime de um determinado lugar, onde a morte e a vingança são os elementos que compõem a trilha de um povo que é estimulado diariamente a contemplação pela desgraça alheia,  através de programas policialescos, onde o sangue não corre nas veias e sim, nas ruas. 

O mistério de um assassinato fictícios é o mesmo que abrir caminhos para o estímulo e a naturalização do crime como forma de fortalecer a barbárie. Compreender as dificuldades para lidar com a morte como um fenômeno natural da vida é um processo doloroso  que  exige apoio e aceitação. No entanto, naturalizá-la como instrumento de eliminação de nossas barreiras,  fracassos e vingança sobre aplausos, nunca será a decisão mais sábia que circunda as consciências de quem acredita que “só o amor constrói”.

Caetité-Ba.

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