domingo, 19 de outubro de 2025

ODETE ROITMAN NÃO MORREU!

Por Gilvane Caldas.

Com o fim da ditadura militar no Brasil em 1964, deu-se início a um período de abertura política pelas Diretas já em 1985. Na sequência, veio a promulgação da constituição cidadã em 1988. Com esses acontecimentos, acreditava-se que a classe trabalhadora estivesse na iminência de chegar ao poder de fato, para desfrutar das riquezas do país e assim,  alcançar a diminuição da pobreza e da miséria, conquistando a tão desejada democracia cidadã e o estado de bem-estar-social.

A personagem fictícia “Odete Roitman” do “Vale Tudo”, de 1989, sempre foi cercada de mistério sobre sua morte, sobre quem a teria “matodo”? Antes é importante saber quem era essa figura que despertava amor e ódio na ficção. Odete figurava como a cara da burguesia brasileira, preconceituosa,  racista e misógina, características da elite nacional de alma escravocrata e adepta dos privilégios em detrimento aos direitos dos trabalhadores.

A elaboração da Constituição Cidadã em 1988, não foi capaz de determinar a morte de fato de Odete, aliás,  ela não foi morta, Odete, simplesmente *forjou* a sua própria morte. É assim que as elites se manifestam quando são confrontadas pela organização dos trabalhadores. Ela sai do palco principal, mas não sai do comando das principais decisões políticas e econômicas que são tomadas no país. 

Mesmo que esses governos tenham sido eleitos pela maioria dos trabalhadores e tenham cunho progressistas, nos bastidores é a elite representada por Odete que continua mandando nos destinos da nação. É  ela quem determina as taxas de juro, os financiamentos para o estado investir. Portanto, a morte de Odete não  significou o seu fim, mas a transformação nos modos operativos que a burguesia lança mão para ter seus privilégios garantidos. 

Odete não pegou mais em armas para eliminar seus adversários políticos,  apenas trocou a narrativa e o figurino. Dessa forma, ela não deixou de controlar o cenário, a iluminação cênica e nem a supervisão do texto teatral daí, termos um Congresso Nacional e Assembleias Legislativas que mesmo sendo considerados casas do povo, sempre estão mancomunadas com os interesses das oligarquias e dos feudos coronelistas presentes entre nós.

A aristocracia brasileira nunca acreditou na força e na capacidade produtiva do povo brasileiro,  ao contrário, sempre ofereceu desprezo e exploração. Odete é  a caricatura fidedigna dessa gente que falseia e camufla seus interesses, que muda o discurso e as vestes sem mudar a prática. Odete saiu da Arena, passou pelo PFL, DEM, Democratas e transformou-se no União Brasil,  PL, PP,  Republicanos e o Centrão (ajuntamento de políticos sem princípios éticos), atrelados aos lobbies dos bancos e ao capital especulativo que explora diuturnamente a classe trabalhadora.

Odete na verdade nunca morreu para uma fração da sociedade brasileira. Ela resiste e insiste em não permitir que os trabalhadores acessem o poder de fato. Eliminar a presença de Odete é uma tarefa que a classe trabalhadora nunca deixou de buscar ao longo de suas lutas e batalhas, por essa razão, muitos tombaram na caminhada, derramando suas lágrimas e muito sangue . 

Nesse enredo macabro de Odete a pergunta precisaria ser invertida,  não para saber quem matou Odete, mas quando virá a punição para Odete Roitman pelos crimes cometidos em nome da  caça aos comunistas, pelas mortes de Rubens Paiva, Vladimir Herzog, Anisio Teixeira, Dorothy Stang, Chico Mendes, Margarida Alves e tantos outros que tombaram na luta por justiça, acreditando num Brasil menos desigual, enfrentando a brutalidade e a ignorância das  Odetes. 

A derrota de Odete nos interessa e a autoria precisa ser necessariamente atribuída à classe trabalhadora. Só  assim, teremos a possibilidade de construir uma sociedade de inclusão para  que todos sintam-se parte integrante dessa sociedade, onde a exploração operária não seja a lógica na busca pelo desenvolvimento. A solidez triunfal do operariado dar-se-á necessariamente pela aquisição e desenvolvimento de uma consciência de classe, que permita sustentar os valores democráticos suficientes para derrotar a Odete, mesmo que esse tempo não esteja num horizonte tão próximo. À vista, não seria crível buscar responder quem matou Odete pois, a autoria já estaria consumada, mas, por enquanto, Odete contua viva fazendo suas vítimas.

6.

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