Por Gilvane Caldas 15/04/22.
Num ano eleitoral é comum os cidadãos, os políticos de carreira e os analistas começarem a balbuciar as especulações, as tratativas que rolam nos bastidores do meio político. Partindo do título do texto, observado do ponto de vista das origens e das ideias de cada um desses dois cidadãos, seria inimaginável pensar numa composição de chapa para disputar um pleito eleitoral qualquer, ainda mais para a Presidência da República.
O incômodo dessa composição não está nas diferenças que os dois políticos carregam em suas histórias de vida, descritas aqui de forma superficial. Um vindo do Nordeste, filho de pais retirante, chegou à Presidência da República, já o outro, do interior Paulista, de família com melhores condições de vida e uma história de menos dificuldades, chegou ao governo Paulista. A tão “controversa aliança”, combatida em parte no próprio Partido dos Trabalhadores, acontece porque Alckmin é um liberal conservador, próximo do capital financeiro que apoiou o golpe da ex-presidente Dilma, quando ainda era do PSDB e exercia o mandato de governador do Estado de São Paulo. Essa é uma parte da história que não poderá ser apagada.
Aquele momento passado nos trouxe para o abismo do presente. A conjuntura mudou e exige de todos os progressistas uma postura extremamente racional e lógica, no campo das alianças eleitorais, por mais que isso pareça ser contraditório. Aliar ao inimigo para vencer outro inimigo. Há um provérbio popular que diz: “Se você não pode com o inimigo, una-se a ele”. Esse argumento não reflete a realidade, pois os nossos inimigos são outros, eles representam uma ameaça ao sistema democrático, as liberdades coletivas e individuais.
A crítica simplista da purificação da política sobre os atores envolvidos não condiz com a realidade, pois estamos presos e imersos na ignorância e no negacionismo de quem nunca negou seus valores, mas que levou milhões de brasileiros a acreditarem numa farsa construída por diversos atores. O quadro político, social e econômico do país exige do campo progressista algo além da crítica pela crítica. Aqui não se trata de tornar-se pelego ou endireitar-se, é uma postura de unificação do país, uma busca da verdadeira democracia participativa ameaçada como nunca.
É verdadeira a premissa de que o campo popular, na atual conjuntura, parece não precisar tanto da centro-direita ou direita para vencer as eleições. O problema não parece ser esse de vencer as eleições. O problema é como unificar o país no pós eleição dividido pelo ódio, pela mentira e pela violência além de encontrar um estado de terra arrasada, deixado por Bolsonaro. Isso exigirá de toda sociedade e de seus representantes um esforço de consciência nacional para compreender a necessidade da unidade com figuras de lados que nunca foram convergentes mas que se respeitaram com civilidade no campo democrático.
A pauta das eleições de outubro próximo passa por unificação de parte do povo brasileiro que teve sua alma envenenada por fake news, mentiras, desrespeito a civilização e o culto à ignorância no mais amplo significado do verbete. É importante que o campo popular perceba que a unidade para vencer o fascismo instalado no Brasil não pode ser uma tarefa de alguns, é responsabilidade de todos que acreditam na democracia. A crítica é importante para poder reafirmar nossas origens e determinar a direção que desejamos percorrer, mas ela não pode ser uma ferramenta que impeça nossa caminhada.
A formação de uma coalisão ou mesmo aproximação programática com aqueles que sempre foram nossos adversários no campo das ideias, não significa que mudamos nosso jeito de caminhar ou a direção da caminhada. Pelo contrário, a nossa luta fortalece dentro do campo de adversários que outrora nos faziam duros ataques e vice-versa, porém, dentro do jogo democrático. Agora, o jogo está sendo jogado fora das quatro linhas da constituição, o flerte é com o fascismo, o que exige responsabilidade e união dos democratas e de quem tem compromisso com o povo brasileiro.
Talvez seja o momento para aprendermos na prática a parábola do “porco espinho” para enfrentar o frio rigoroso no momento de dormir, neste caso a barbárie. Mesmo que os espinhos possam nos ferir no encontro, o instinto pela sobrevivência é mais forte. A chapa Lula/Alckmin é um pouco dessa estória.
A aliança Alkmin-Lula prestes a oficializar-se não está centrada apenas numa composição eleitoral, que se funde apenas no dia da eleição. É preciso garantir a tão cantada governabilidade no presidencialismo de coalizão. A política é uma atividade de risco e as alianças são feitas com aqueles que pensam diferente de nós. É um somatório de diferenças, o que não significa que deixamos nossos princípios, nossas bandeiras históricas em defesa dos direitos da classe trabalhadora.
Salvar o país do fascismo e dos fascista não será uma tarefa fácil, nem tão pouco uma tarefa feita através do proselitismo político, puritano de uma “esquerda” que atua apenas ideologicamente sem uma prática que promova o desenvolvimento da consciência política do cidadão. Não se pode esquecer que o golpe na sua gestação teve aplausos na tribuna do Congresso Nacional por parlamentares que se intitulam de "esquerda". Em determinados momentos fizeram coro com a direita vislumbrados com o apoio e a visibilidade midiática para atacar o governo Dilma, só depois de certo tempo perceberam do equívoco que estavam cometendo, mas aí já era tarde o golpe já estava quase consumado.
Sem mais delongas, como um simples descrevinhador dessas rasas ideias, não há aqui nenhuma pretensão de achar que o caminho é certo ou que essas especulações políticas prevaleçam para as eleições de 2022. Em tempos sombrios precisamos conversar com muita gente, iniciando pela nossa “casa” alertando para a necessidade de uma composição ampla que garanta a participação do povo nas decisões e uma inserção do Brasil nas grandes decisões políticas no mundo sem que a nossa crítica deixe de ser feita.
Caetité Bahia.
Nenhum comentário:
Postar um comentário